domingo, 9 de agosto de 2009

um sorriso

um sorriso

naquele dia tinha acordado mais cedo. andava preocupada com a ida ao médico do francisco. na última consulta, as análises tinham alguns elementos estranhos e maria não queria estar desprevenida, uma vez que, se o problema fosse deveras grave, muita coisa se alteraria nas suas vidas.

levantou-se. foi para a casa de banho e pôs a água a correr. soube-lhe bem sentir a água quente a cair no corpo. agora, eram apenas aqueles momentos os únicos em que podia relaxar.

depois de já estar vestida e antes de descer para ir preparar o pequeno-almoço, foi ao quarto acordar o francisco.

dormia profundamente. ficou a olhar para ele. como era bonito o seu sorriso, mesmo a dormir... fora, aliás, aquele trejeito brincalhão de menino que a tinha cativado e a tinha feito olhar de maneira diferente para ele.

estavam na esplanada do café, em mesas separadas, mas no mesmo grupo de amigos. quer dizer, eram mais conhecidos, uma vez que amigos tinha apenas, ali, a cristina e o namorado.

tinham sido apresentados durante o jantar; o francisco era amigo do pedro, namorado de cristina. falaram durante o jantar, já que ficaram frente a frente. mas ali na esplanada tinham ficado em mesas separadas... e sorriam apenas um para o outro.

agora, já passados seis anos, continuavam a sorrir assim. o sorriso era o mesmo, ainda que cada vez mais cúmplice. o dele quase traquina.

que novidades teria o médico?

chamou-o: francisco, acorda.

sorriso perdido

sorriso perdido

um dia saiu de casa e perdeu a vontade de ir para a escola.
resolveu ir à procura do mundo. percorreu cidades, países, continentes. conheceu outros sítios, outras gentes... durante esse tempo pensou que era feliz e lentamente pensou, também, que já se tinha esquecido da sua escola, da sua casa.
e o tempo foi passando.
um dia, alguém lhe disse que perdera o sorriso. ficou preocupada. viu-se ao espelho e verificou que era verdade. quis chorar e não conseguiu. disseram-lhe, então, que, para chorar, tinha de voltar a encontrar o sorriso. procurou naquela cidade. naquele país. naquele continente.
não o encontrou.
viajou por todas as cidades e países dos outros continentes por onde tinha andado. não o encontrou.
e, de repente, durante outra noite de tristeza, lembrou-se da sua casa, da sua escola.
regressou. o sorriso estava lá, à sua espera, entre a casa e a escola. o primeiro caminho que tinha aprendido a fazer.
ficou.

esgar cruel

esgar cruel

não entendo essa frieza. esse esgar cruel. essa ousadia do teu olhar. são todos os dias os mesmos e tu sem desceres. sem quereres, sequer, falar comigo.
no café, ontem, quando me pediste para ir embora, tive vontade de sair dali definitivamente. tive vontade de não te tornar a ver. tive vontade de não permitir que me voltasses a olhar assim.
saíste, de novo, sem nada para deixar que eu abraçasse...e o meu dia correu como um labirinto fechado.
chorei.
já nem a memória das tuas mãos no meu rosto eu recordo. as tuas palavras soam-me estranhas. e esse olhar perdido no vazio aterroriza-me.
tens-me presa às memórias daquele tempo em que nos ríamos e era tudo tão fácil. daquele tempo em que, depois de nos abraçarmos, eu ficava feliz e não pedia mais nada. só a tua presença.
agora, tenho medo de ti.
escondo-me nos lençóis da cama à espera que tu não venhas. que te percas nalguma rua e esqueças a morada desta porta. mas tu vens sempre. mas tu olhas-me sempre com esse perfil tão cínico.
hoje, de ti, só medo e raiva.
pergunto-me tantas vezes quando começou o vazio, quando é que as nossas almas se separaram e não encontro o dia.
terá sido numa hora, num dia, num minuto?!
diz-me.
assim, enlouqueço.
assim, perco-me destas palavras cruzadas de lágrimas e raivas, quase surdas por uma espera que nunca vai chegar.
eu sei.
estou presa.
eu sei.
eu amo-te.
eu sei que não me posso ir embora.
eu sei que tenho medo de ti!

um momento

um momento

era uma daquelas viagens que tinha de repetir todos os anos. já passara tanto tempo e ainda assim tinha esperança de voltar a encontrá-la.
as memórias pregam-nos destas partidas. esquecemos por tanto tempo factos que gostaríamos de perder para sempre e, de repente, eles surgem como se o dia do acontecimento tivesse sido ontem.
estávamos em agosto. era a festa da aldeia. nunca gostara muito daquelas actividades, mas...como a avó me pedia, por lá andava, sempre com um sorriso nos lábios a mostrar a minha alegria que só eu sabia fingida.
era o fim da tarde. as ruas estavam quase vazias, já se cheirava o frescor da noite.
e eu ainda vagueava por ali.
aquela hora até que me era agradável.
subi a rua que ia dar ao coreto. o centro da festa, onde os músicos iriam tocar toda a noite para embalar as almas nos sonhos.
quando já me preparava para regressar a casa, decidido a não voltar ali, naquela noite...reparei nela.
estava sentada nas escadas do coreto.
era alta, esguia. cabelos e olhos pretos. pelo menos foi sempre assim que a imaginei.
os cabelos soltos esvoaçavam ao sabor da brisa. aproximei-me.
não a conhecia. como estávamos "em festa", escondi a minha timidez, e perguntei-lhe quem era. olhou para mim. sorriu e manteve-se em silêncio, fixando o olhar num ponto qualquer da aldeia.
insisti que me dissesse quem era.
estava preso àquela escada. e agora não queria sair dali. ela, então, silenciosamente, levantou-se, olhou-me e disse que me diria à noite. que me esperaria ali, naquelas escadas, e que dançaria comigo a noite toda.
e foi-se embora.
eu fiquei parado. não consegui mover-me.
devem ter passado mais de vinte minutos...entretanto, tocou o sino da igreja a anunciar a hora que eu sabia ser a do jantar.
corri para casa da avó.
já depois do jantar, e como era habitual, sentei-me a ver televisão à espera que a avó lavasse a loiça. só então iríamos os dois, de novo, até ao centro da aldeia ver a festa.
como estava ansioso pelo tal encontro...acabei por fechar os olhos a sonhar...
quando os voltei a abrir, o silêncio já tomara conta da casa da avó e da festa lá fora.
ainda saí a correr até ao coreto...
mas já estava vazio.
não encontrei ninguém.
as ruas vazias.
nada.
só eu.
o tempo passou e eu vivi a minha vida. esquecido daquele momento, no dia-a-dia, e, no entanto, todos os anos, em agosto, lá volto.
um dia, hei-de encontrá-la. alta, esguia, cabelos e olhos pretos.
um dia...

a bruxa

a bruxa

era uma vez uma bruxa. era má, mesquinha e feia como todas as bruxas.
mas era feliz. as bruxas são assim.
vivia num castelo cinzento rodeada de pessoas que não sabiam que ela era bruxa. só o feiticeiro.
aliás, o feiticeiro tinha-lhe feito aquele castelo para que ela fosse feliz ali.
ele gostava dela, ainda que soubesse que ela gostava de fazer mal às pessoas; ainda que soubesse que ela gostava de ver os outros a sofrer.
ele tinha percebido há muito tempo que aquela bruxa era especial e que para a ter com ele tinha de a fazer feliz. e ela era feliz assim.
do castelo tratava ela todos os dias.
acendia as velas, limpava o pó da noite, abria as janelas e deixava entrar todas as pessoas que quisessem por ali passar.
era simpática com elas. sabia que tinha de ser, senão elas iam embora.
no entanto, sempre que tinha muita gente no castelo, deixava de ser simpática com algumas para que o castelo não ficasse muito cheio.
se houvesse muitas pessoas ela tinha de arranjar mais pessoas para acender as velas, limpar o pó da noite, abrir as janelas e deixar entrar as pessoas.
e ela não queria que isso acontecesse. por isso escolhia as pessoas com quem sabia que podia contar para estar ali.
escolhia as pessoas que ela sabia que nunca lhe iriam dizer não.
e era feliz assim.
e todas aquelas que pessoas que por ali passaram e até gostaram do castelo que o feiticeiro tinha feito, mas sabiam dizer não, acabaram sempre por partir, porque sentiram que não havia lugar para elas.
e ela, a bruxa, ficava feliz, porque era má.

essa bruxa ainda vive nesse castelo.
depois dela partir

entrou. a casa era sua. os tectos, as paredes, as janelas. tudo. era ali que queria estar. sozinho. outra vez sozinho.
a morte fora um imprevisto e agora era de novo o princípio. sem ela.
por isso as paredes estavam nuas. as janelas fechadas, as portas entreabertas...apenas o espaço para ele passar.
não se queria lembrar de nada. queria o vazio. queria a solidão. queria que todos os barcos passassem por ele sem o ver.
queria que amanhã o dia fosse o de ontem.
queria que as rosas do jardim voltassem a ser colhidas.
queria que as cores dos livros que outrora estavam nas estantes voltassem a sentir o calor do sol matinal.
queria...
queria que ela estivesse ali.
de repente parou.
ainda lá estava a cadeira. a cadeira onde ela se sentava todos os dias depois de descer as escadas.
esquecera-se da cadeira.
e agora?!
ficou petrificado, agarrado às tábuas do chão como alguém que quer pedir socorro e não consegue.
parou porque também já não tinha forças para fazer mais nada.
parou porque não se quisera lembrar de pedir que lhe levassem, também, a cadeira.
parou.
chorou.
e teve saudades.
do seu sorriso; da sua voz; do movimento do corpo quando se levantava de manhã.
do perfume; das cores das roupas; das gargalhadas cristalinas..
chorou.
lembrar-se.
a cadeira estava lá.
e teve vontade de subir as escadas, correr para o quarto, deitar-se nos lençóis que ainda teriam o seu cheiro...
mas não podia.
os degraus já não estavam lá.
também os degraus tinham partido.
ele quisera assim.
quisera esquecer.
agora era apenas uma espiral. e lá em cima estava o seu sonho.
ela morreu.
e ele queria apenas descansar.

saiu de casa.
chegou

chegou a casa.
fechou as janelas. já não tinham de estar abertas.
lá fora o vento soprava.
sentou-se.
depois levantou-se e foi para a cozinha. vagueou pelo meio dos tachos, pratos, copos, facas, garfos e colheres. sentou-se.
vestiu o pijama. tornou a levantar-se, desta vez, para ir buscar o chá que ficara em cima da bancada da cozinha.
voltou a sentar-se. fechou os olhos e, por minutos, esperou que eles se esquecessem de ver...estava ali.
o dia acabara e agora a hora era a da noite.
tornou a levantar-se. a sala estava cheia de ausências...além das vozes que povoavam as prateleiras das estantes, estava só o silêncio da sua voz e o som, cadenciado, da respiração.
estava viva - outro dia que acontecera.
a alma estava cansada. tinha de ir descansar o corpo. as pernas que já lhe doíam. os braços que lentamente ficavam dormentes...e os olhos, claro, esses, que viam tudo, mesmo quando, de manhã, no caminho para o trabalho, estivesse nevoeiro. esses estavam exaustos.
tinha de ir descansar.
levantou-se e foi.